“Diários de Motocicleta”

27 fevereiro, 2008 at 11:45 am Deixe um comentário

O retrato da viagem de Alberto e Fujer, em “Diários de Motocicleta”, trás vários aspectos latino-americanos tratados pelos autores Larraín, Romero e Dupas. Cabe fazer um ressalvo, mesmo o filme se passando nos anos 50, muito do que nele se assiste, ainda hoje se vê pela América Latina.

A falta de trabalho, a exploração e os jogos de poderes são aspectos marcantes em “Diários de Motocicleta”. Um exemplo seria a seqüência de cenas do casal expulso de casa, por ser comunista. E a procura do homem por emprego em uma mina, onde os trabalhadores foram escolhidos como mercadorias e tratados como escravos.

Uma passagem de Guevara relata: “Ao sairmos da mina, sentimos que a realidade começava a mudar… Ou éramos nós? À medida que subíamos as cordilheiras encontrávamos mais indígenas que nem sequer tinham um teto onde fora sua própria terra”.

E aqui faço uma comparação com fatores que Larraín e Romero colocam como motivos para o atraso da modernidade latino-americana. O esquecimento dos indígenas, (dos negros no Brasil) gerou um processo de constituição de periferias, de favelas. Processo esse que aumenta com a ilusão de que nativos e mestiços devem continuar sendo explorados. Como tal preconceito não atrasaria a modernidade? Pensamentos inescrupulosos não poderiam servir para crescimentos.

Afinal, esse processo de exclusão limita desde a educação a outros fatores básicos. Os excluídos não têm oportunidade de estudar e começam a trabalhar muito cedo na tentativa de garantir um futuro. Mas o que eles, na grande maioria das vezes conseguem, é continuar a disseminar mais exclusão. Pois acabam gerando filhos e constituindo famílias, sem condições de mantê-las. E quando os filhos começam a crescer o caminho da escola acaba desviado para um trabalho explorado na tentativa de ajudar os pais. Como modernizar países que nem mesmo conseguem manter um nível de educação mínimo aos seus habitantes?

Quando os viajantes em “Diários de Motocicleta” chegam a Machu Pichu uma citação de Ernesto chama muito atenção e pode ser relacionada com os autores estudados.

“Os incas tinham grande conhecimento de astronomia, medicina, matemática entre outras coisas. Mas os invasores espanhóis tinham a pólvora. Como seria a América hoje se as coisas tivessem sido diferentes?”. (Diários de Motocicleta).

Larraín atribuiria essa citação ao que chamou de trajetórias históricas. Trajetória essa que atrasou a América Latina, por viver, até mesmo depois da independência, sob grande influência de suas antigas monarquias.

Aqui já podemos traçar um paralelo com Dupas que ressalta em seu artigo as perspectivas econômicas e políticas. O autor cita o modelo de privatizações para manter a economia estável, o chamado estado mínimo. Modelo esse que deveria funcionar se os impostos pagos pela população, realmente, fossem revertidos à infra-estrutura básica de um país. Porém isso ainda não é exercido como deveria na América Latina. Ponto esse que reflete na falta de educação que permite a prática do trabalho explorado e que ainda contribui para a continuação do que chamariam de jogo de poder.

Ou seja, quanto mais excluídos, desentendidos do mundo, mais fácil se mantem inatingível, cheio de regalias quem está no poder. Para os poderosos, iludir o povo em épocas de eleição com brindes e propostas de bolsas em dinheiro medíocres, é o suficiente. Precisam apenas fechar os olhos para as periferias que continuam vivas e para os necessitados que ficam cada vez mais acomodados. Pra que trabalhar e estudar? Se o estado garante um auxiliosinho àqueles que continuam pobres para os manter ricos. Afinal, enquanto as periferias existirem, o poder não se extingue e os donos do mundo não precisam se preocupar. Preocupados eles estariam se o estudo e o trabalho chegassem a todos, fazendo da população muito entendida e com força para derrubá-los do alto.

Por fim, destaco o preconceito. Traço marcante em “Diários de Motocicletas”, na passagem de San Pablo, onde leprosos são discriminados. Por mais que o preconceito não seja exclusivo da América Latina, é um fator que atrasa a modernidade e as estruturas políticas, sociais de um país. E para os latinos é mais um aspecto agregado ao seu atraso. Na trajetória histórica de Larraín poderíamos citar o extraordinário poder da Igreja Católica como exemplo da disseminação desse preconceito. Padres e freiras marcaram essa trajetória com diversas proibições, inquisições, punições e os ditos pecados.

E diante desse preconceito referido em “Diários de Motocicleta”, e talvez existente por meio dessa trajetória histórica, cabe ressaltar a colocação feita por Fujer, que retrata a indignação, mas acima de tudo a vontade que poucos têm de acreditar numa América Latina melhor.

“Apesar de nossa insignificância para sermos porta-vozes de sua causa, acreditamos que a divisão da América Latina em nacionalidades vagas e ilusórias é totalmente fictícia. Constituímos uma única raça mestiça do México até o estreito de Magalhães. E, assim, me despindo de qualquer provincianismo eu brindo ao Peru e a América Latina”. (Diários de Motocicleta).

Para concluir lembro o quanto é arriscado querer mudar essa América Latina periférica. Fujer anos depois dessa viajem pelos países latinos “se tornou Ernesto Che Guevara, um dos lideres mais proeminentes e inspiradores da revolução cubana que lutou pelos ideais no Congo e na Bolívia, onde foi capturado pelo exército boliviano e com o apoio da CIA assassinado em outubro de 1967”. Morreu sem conseguir desfrutar de suas sonhadas mudanças, com a ilusão de que poderia haver alguma mudança. Eu não percorri a América Latina em uma motocicleta, nem escrevi um diário. Mas vejo relatos todos os dias espalhados pelos meios de comunicação de que os latino-americanos continuam vivendo em meio a crises, corrupções, preconceitos e ideologias sem prática. E ainda arrisco dizer que aqueles que tentarem muito reverter esse quadro acabarão como Che.

“Este não é um relato de feitos heróicos. É um fragmento de duas vidas que percorreram juntas um caminho, compartilhando as mesmas aspirações e os mesmos sonhos. Será que nossa visão foi estreita demais, parcial demais, apressada demais? Talvez. Mas esse vagar sem rimo por nossa América colossal me transformou mais do que eu pensava, não sou mais o mesmo. Pelo menos, não sou mais o mesmo por dentro”. (Diários de Motocicleta)

Anúncios

Entry filed under: Artigos. Tags: , , , .

Uma nova fase… Palmeiras X São Paulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


fevereiro 2008
D S T Q Q S S
    mar »
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
242526272829  

Categorias


%d blogueiros gostam disto: